Uma nova investigação, utilizando tecnologia de ponta, desvenda o mistério por trás do Monte Sierpe, uma colossal paisagem com 5.200 cavidades no Vale de Pisco, Peru. Construída entre 1000 e 1400 d.C., a estrutura, que por séculos intrigou arqueólogos, é agora interpretada como um sistema de dupla finalidade: inicialmente, um vibrante centro de permutas pré-incaico para a civilização Chincha, que posteriormente foi reconfigurado pelos Incas como um sofisticado sistema de registro imperial, funcionando como um gigantesco ábaco para a administração de tributos.
Longe de explicações sobre armazenamento ou defesas militares, a ciência moderna oferece uma interpretação mais plausível. Graças ao mapeamento aéreo de alta precisão com drones, pesquisadores liderados pelo arqueólogo digital Dr. Jacob Bongers, revelaram que as perfurações, com diâmetros de um a dois metros, não são aleatórias. Pelo contrário, estão organizadas em cerca de 60 agrupamentos distintos, sugerindo um sistema deliberado.
A investigação aprofundou-se com a análise palinológica, o estudo de microvestígios botânicos, que encontrou pólen de cultivos essenciais como o milho e de plantas usadas em cestaria. Esta descoberta robustece a hipótese de que, em sua fase inicial sob a civilização Chincha, Monte Sierpe funcionou como um vibrante entreposto comercial, um mercado a céu aberto onde cestos com produtos agrícolas eram depositados nas cavidades como unidades de troca em um sistema de escambo.
De Mercado a Livro-Razão Imperial
Posteriormente, com a ascensão do Império Inca, a funcionalidade do local parece ter sido reconfigurada. A organização segmentada e matemática da estrutura ecoa o complexo sistema de contabilidade têxtil dos Incas, os khipus — cordões com nós que registravam dados numéricos.
A equipe de pesquisa postula que o Monte Sierpe foi transformado em um livro-razão físico, uma espécie de “planilha” monumental para a administração do império, possivelmente utilizada para o controle de tributos recolhidos das comunidades locais. A sua localização estratégica, próxima a importantes rotas comerciais e sítios incas, reforça esta teoria de um centro administrativo.
Embora a conexão direta com os khipus ainda demande mais evidências para ser conclusiva, a pesquisa atual refuta eficazmente muitas conjecturas anteriores e abre uma fascinante janela para a complexa economia e burocracia das civilizações andinas ancestrais.
