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A Inefabilidade do Amor

“Chegando lá, fui recebido por meu padrinho declamando um poema em francês com um maravilhoso sotaque sanraimundense. Nada entendi e muito fiquei maravilhado.” 

Meu nome é em homenagem a um tio querido do meu pai. 

Esse tio foi meu padrinho. Ele já se foi. Era poeta e escritor. Um intelectual. Sobretudo, era amado. 

Quando completei 20 anos, achei nas coisas de minha mãe uma carta que ele havia escrito para mim quando soube do meu nascimento e do nome que me seria dado. Ao final, escreveu: “seja bem-vindo, meu borrego”. 

Ele amava o interior. Certa feita, contou-me que em sua fazenda havia um lindo pé de catinga-de-porco, que lhe enchia os olhos, e que havia dado a este frondoso espetáculo de árvore o nome de “Darinho”. 

Com dificuldades para ouvir, usava aparelhos auditivos. Ele tinha o doce costume de ficar bem perto, atento ao diálogo, assentando com a cabeça e dispersando um sorriso de plena atenção. 

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Meu padrinho poeta, a quem dediquei meu primeiro livro de poesias, era um homem apaixonado por minha madrinha Rosita. 

Um dia, atendi o telefone. Era ela. “Darinho, seu tio quer lhe dar uns livros de presente”. Agradeci e marcamos o dia da visita. 

Chegando lá, fui recebido por meu padrinho declamando um poema em francês com um maravilhoso sotaque sanraimundense. Nada entendi e muito fiquei maravilhado. 

Subimos a escada. Levou-me à sua biblioteca. “Separei esses aqui. O resto é tudo seu”. Arregalei os olhos e pausei por segundos. Ele estava me presenteando com a sua biblioteca. 

Domada a surpresa, fui folhear livros e agradecer. Tive que ir em casa pegar uma mala. Voltei. Ele explicou: “estou velho. Tenho que passar logo meus livros adiante”. 

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Naquele tempo, eu era jovem e disperso demais para compreender todo o significado daquela ação. Apenas fiquei feliz e emotivo. Dois anos se passaram e meu padrinho faleceu. 

Hoje, 20 anos depois, pego-me encarando o passado e folheando lembranças. Olho a minha biblioteca, encarando a inevitabilidade do fim.

Abro o livro “A Hora da Espera”, do tio Dário, e releio a dedicatória que ele fez para mim.

“Querido sobrinho, começa-se a ganhar a vida desde o dia que se nasce. Para torná-la bela é só brincar, estudar, trabalhar, ser bom irmão, bom filho, bom pai, bom esposo e bom cidadão. Isso é o que espero de você. Do tio que muito lhe estima, Dário.” – 02/08/1996

A inefabilidade do amor afaga meu coração. 

Dário Castro

Escritor, Jornalista e Mestre em Estudos Culturais.
Contato: [email protected]

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