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Empoderando a diversidade: a valorização e aceitação da mulher gorda na era digital

Arquivo pessoal: Camila Hilario

Na era digital, em que as fronteiras da comunicação são constantemente redefinidas, um movimento transformador tem ganhado força e voz: a valorização e aceitação da mulher gorda.

A internet tornou-se um espaço crucial para desafiar os estereótipos de beleza impostos pela sociedade, oferecendo uma plataforma empoderadora em que as vozes das mulheres podem ser ouvidas e celebradas.

A imposição de padrões de beleza baseados em corpos magros tem sido uma realidade perpetuada pela mídia tradicional e pela cultura dominante. No entanto, a internet trouxe uma mudança de paradigma, proporcionando uma área onde blogs, redes sociais e comunidades online se transformaram em refúgios de resistência.

Estes espaços digitais são muito mais do que simples plataformas – eles tornaram-se movimentos culturais que fomentam a auto aceitação, auto estima e amor-próprio. Blogueiras e influenciadoras estão redefinindo os conceitos de beleza, ao exibir confiança e autenticidade em suas postagens.

Conversamos com a jornalista e criadora de conteúdo Camila Hilário, de Teresina-PI. Ela nos explica como começou a falar sobre autoaceitação em sua conta do Instagram, que era utilizada para divulgação de seus trabalhos como modelo:

“Não decidi que queria trabalhar criando conteúdo para a internet. Eu comecei no Instagram em dois mil e dezesseis com o intuito de me apresentar para o mundo como modelo. Então, postava fotos profissionais e criava meus ensaios. Pensava em um local, nas roupas, na maquiagem, criava os conceitos para meus ensaios e os postava. Só que depois eu via que algumas pessoas perguntavam sobre como eu encontrava tal roupa ou me elogiando pelo meu cabelo, querendo saber detalhes das coisas que mostrava. Tipo ‘ah, de onde é essa roupa, essas sandálias, como é que você faz?. E aí pude ter essa conexão com as pessoas que se mostravam interessadas no meu modo de me expressar” lembrou a criadora.

A desconstrução do estigma associado ao corpo gordo na internet está criando uma revolução silenciosa que reverbera para além das telas. A exposição a imagens e narrativas de mulheres empoderadas e confiantes com suas curvas/suas formas desafia percepções arraigadas, promovendo a empatia e construindo uma cultura de aceitação.

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Camila explica que o processo de aceitação dela ajudou outras mulheres:

“Em 2018, comecei a compartilhar sobre meus processos de autoestima, como eu me sentia em relação ao meu corpo, as estrias, celulites. Acompanhava outras mulheres também que exibiam um corpo mais livre, sem todo aquele desespero para estar no padrão estabelecido do que é considerado bonito. Para ser desejada e aceita, a mulher tem que ser branca, magra e heterossexual, e eu não sou nenhuma dessas coisas. Só que parei de pedir desculpas por isso, parei de viver com a culpa de não ser isso e quando passei a sentir orgulho e a ficar confortável na minha própria pele, outras pessoas se identificaram “, reitera ela.

Essa mudança gradual de mentalidade tem o potencial de influenciar atitudes e comportamentos no mundo offline à medida em que a aceitação e a valorização da diversidade corporal se tornam cada vez mais intrínsecas à nossa consciência coletiva.

“Quando você é sincera e se mostra vulnerável, as pessoas respondem a isso porque é uma experiência compartilhada, né? Eu não sou a única pessoa no mundo que não se sente suficiente, muita gente se sente assim. Só que diante de tanta publicidade e de toda uma estrutura dizendo que você só vai ser feliz se for magra, são poucas as pessoas que têm coragem de dizer que NÃO querem isso”, afirma Camila

A internet emergiu como uma poderosa ferramenta de transformação social, fornecendo um espaço inclusivo para a valorização e aceitação da mulher gorda. Essa revolução digital está desafiando os padrões estabelecidos, capacitando mulheres a abraçar suas identidades e a viver suas vidas com confiança e autenticidade.

“Sou uma mulher negra, fora do padrão e bissexual, e eu existo dessa forma. Me expresso sem vergonha nenhuma, sou extremamente fiel a mim mesma. Eu compartilho a MINHA experiência, a MINHA jornada, que é incerta e bagunçada. Definitivamente não é linear e não é divertida, mas estar nesse processo salvou a minha vida. Eu me encontrei e me sinto cada vez mais eu mesma. Estou conectada com a minha verdade, e eu me sinto genuinamente feliz quando faz sentido para alguém. Recebo muito carinho por causa disso e eu sou grata” finalizou.

À medida em que a voz dessas mulheres ecoa além do mundo virtual, é possível vislumbrar um futuro mais compassivo e diversificado, em que a beleza é verdadeiramente definida pela individualidade e pela aceitação de todos os corpos.

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Sane Araujo

Jornalista e pesquisadora, formada em Comunicação Social pela Universidade Federal do Piauí.

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