Eu Vos Declaro Marido e Marido

Ilustração de casal de homens brancos de terno diante de fundo colorido. Eu Vos Declaro Marido e Marido. Coluna Dário Castro. Revista Meu Piauí

Poucos ódios são tão declarados e viscerais quanto o que sentem os mais cristãos contra os homossexuais.

Estapafúrdias figuras, esses pregadores de ego ptolomaico e voz rasteiramente confortante que com uma mão levantam a bíblia e com a outra batem à mesa cuspida acidentalmente pelos brados coléricos que falam insistentemente da “vontade de Deus”.

Não se dão conta, mas seus argumentos levam à conclusão que, em Sua magnificência e poder, Ele haveria de ser o responsável por tudo, pela existência das flores, das estrelas e, da mesma maneira… dos homossexuais.

Aliás, os santos padres também são criação de Deus, mesmo os menos santos deles. E isso nos leva a perguntar, afinal, que linhas tortas são essas com que Deus escreve a história de milhares e milhares de crianças abusadas sob o teto das igrejas, vítimas daqueles que falam em Seu nome?

Uma investigação apresentou o inacreditável número de 330 mil casos de pedofilia na igreja católica desde 1950. No mundo? Não. Esse números são apenas na França. Em Portugal, o registro oficial é de quase 5 mil crianças abusadas por clérigos no mesmo período.

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Que divina matemática é essa que chega à conclusão de intervir contra o amor verdadeiro e recíproco de dois adultos e permite a metástase da pedofilia no corpo da igreja?

Não se enganem. Quando séculos se arrastaram e a decisão histórica da igreja foi esconder os abusos e estupros de crianças, isso é permissão.

Quando por 20 anos o cardeal Ratzinger, Papa que antecedeu Francisco, foi o encarregado de zelar pela obediência aos termos do “Crimen Sollicitationis”, documento secreto enviado aos bispos do mundo inteiro que os orientava a manter sigilo, remanejar os algozes de menores e ameaçar delatores de excomunhão, isso é permissão.

Quando, na tentativa de resguardar os velhos alicerces da igreja, esta fez o possível para que os recorrentes casos fossem vistos como fatos isolados, isso é permissão.

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Permitamo-nos, pois, a heresia de atestar que o grande e evidente defeito de Deus são seus interlocutores; esses pedantes misóginos; esses pedófilos acobertados pelo manto da leniência; esses canalhas que fazem fortunas catedráticas da aspereza da vida alheia e condenam multidões a confiar-lhes cegamente a palavra, mesmo que esta seja de ódio; esses pastores deputados que fazem de tudo para desviar o País do caminho inevitável e natural e lutam contra os direitos mais elementares, entre eles o casamento entre homossexuais.

É por isso que, por enquanto, o único gay que tem permissão para casar no Brasil é mesmo o padre. Casar os outros.

Não tarda o dia, porém, em que olhares apaixonados e comoventes hão de se cruzar cintilantes quando o sacristão disser essas doces palavras:

“Eu vos declaro marido e marido”.

Dário Castro

Escritor, Jornalista e Mestre em Estudos Culturais.
Contato: [email protected]

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