A Fábula das Girafas

Ilustração de duas girafas. A Fábula das Girafas. Coluna Dário Castro. Revista Meu Piauí.

Disse uma girafa às outras o seguinte:

-Não tardará até que estas deliciosas folhas e todas nós fiquemos azuis.

Entreolharam-se as que tinham menos fome e que deram ouvidos.

-O céu está azul demais hoje. Notável e inegavelmente! É certo, pois, que as nuvens acima carregadas despejarão a tinta do céu sobre nós.

Continuou com ar e pose professorais.

Entre os relinchos e a gozação de algumas, ela apenas olhou para cima e perguntou para si mesma:

-E o céu, meu Deus, de que cor ficará?

Antes que viesse a chuva, uma girafa chegou cambaleando entre relvas, troncos e risos para apontar o erro no que acabara de ouvir. Mostrou que sempre choveu e que dias azuis assim nunca foram esmaecidos pelas tormentas d’água.

Mas, certa do que dizia, a primeira retrucou que cada qual tem a sua verdade e que lhe bastava o que sabia bem no fundo do seu coração. Neste momento, ela abocanhou uma folha enquanto pensava e torcia: “verás, verás, quando chover”.

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A outra, então, engolida pelo discurso da relatividade, resolveu provocar:



-Será que vamos ficar verdes? Porque se levar em conta que o azul vai mesclar com o amarelo-savana de nossos pelos, dá verde, né?   

Depois de uma pequena pausa para considerar a sua resposta, a primeira revelou que não havia considerado todos os detalhes e pormenores, mas que, sabendo claramente da intenção da outra, não se deixaria levar nem mesmo por argumentos.

Não desistindo, a mais cética deixou a provocação de lado e perguntou com a leveza das folhas:

-Não é possível então que o vento, invisível que é e forte que está hoje, apague as nossas pintas?

A resposta veio em forma de um riso debochado justaposto a uma tosse abrupta. Logo fez-se audível a curta manifestação daquela que, vez e outra, buscava no céu pingos azuis:

-Ridículo!

Foi neste momento que se deu um basta e a outra esbravejou:

-Demais esse seu relativismo! Quando não lhe serve mais, joga fora pela janela! Se você acredita em algo por acreditar, sem se importar com as provas, por que motivo então não acredita em qualquer outra coisa igualmente sem prova? O mesmo argumento que invalida o que você acabou de chamar de ridículo também faz ir por água abaixo o que você acredita…

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Sem ouvir nada em resposta, ela continuou:

-Afinal, que verdade é essa que precisa tanto desse seu egocentrismo para sobreviver? Não consigo pensar de outra maneira… essa história que cada um tem a sua verdade é só o jeito que você descobriu de evitar que cutuquem a sua, enquanto sente pena ou desprezo pela minha. Cá para mim, dizer que cada um tem a sua verdade é tão somente dizer que cada um tem a sua mentira e tentar a todo custo ter fé na sua, apesar de todas as evidências.

Nesta hora começou a chover. O que tinha que acontecer, aconteceu.

Dário Castro

Escritor, Jornalista e Mestre em Estudos Culturais.
Contato: [email protected]

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