Cem Dias Sem Paz

Foto oficial do Presidente Lula sorridente usando a faixa presidencial à frente de desenhos de rostos zangados. Cem Dias Sem Paz. Coluna Dário Castro. Revista Meu Piauí

Os 100 dias de governo Lula estão chegando. 

Em condições normais de temperatura e pressão, esse período inicial é marcado por certa paz política, esta produzida por um misto de expectativa popular e de moderação da oposição no Congresso Nacional para com o presidente estreante.

Não foi o que se viu desta vez. No campo político, ao fim das eleições já sabíamos que a nova extrema direita estaria em grande número na próxima legislatura. No campo social, o recado também foi imediato. Os eleitores do candidato derrotado tomaram as ruas para reclamar do resultado legítimo das eleições e fizeram bloqueios por todo o país.  

Para piorar tudo, em 8 de janeiro a República foi atacada. Com a invasão e depredação das sedes dos três poderes por uma horda antidemocrática, ficou bem claro que, para além de fazer política, o novo governo precisaria defender a própria existência da política institucional. 

Dias após a invasão, Lula foi taxativo ao dizer: “as Forças Armadas não são o poder moderador como pensam que são”. Isso foi um recado óbvio, somado à intervenção federal que decretou na segurança pública do Distrito Federal em vez de uma operação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), que cederia poder ao Exército. 

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Aos poucos, fomos aprendendo mais sobre os fatos e nos surpreendendo. Imprensa, políticos, eleitores, todos nós pisávamos em ovos para compreender e explicar a dimensão da relação não só dos militares, mas também de empresários (agro) e das igrejas (evangélicas) com o ocorrido. 

Chegando aos 100 dias de governo, as atribulações continuam. Não restam dúvidas de que a aposta no caos será a estratégia dos opositores ao governo. E quando falo de opositores, sinto que é importante frisar: não me refiro à classe política. 

Para compreender a nova extrema direita, é necessário sair do lugar comum e vê-la como ela é: um movimento além-política institucional, fascistóide, antirrepublicano e antidemocrático. Daí, podemos olhar com atenção para seus personagens, métodos, forças e, especialmente, para seu apelo. 

Uma vez compreendidos esses aspectos, é importante voltarmos o olhar para duas características importantes do neofascismo brasileiro, que são a sua organicidade e a sua automação. Como movimento social orgânico, ele é impulsionado por pânico moral, desinformação, negacionismo e tantas outras maneiras de fechar o grupo e consolidá-lo como unidade. Mas para que tudo isso aconteça, a automação é imprescindível. Sem o uso inteligente, financiado e estratégico das redes sociais, dos ambientes de culto, entre outros, seu crescimento e manutenção seriam improbabilíssimos. 

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É esse inimigo multifacetado e organizado que o governo Lula vai ter que enfrentar. Se tentar fazê-lo meramente no campo institucional, vai perder a guerra, batalha após batalha. 

O recente episódio PCC/Sérgio Moro é prova e exemplo disso. A Polícia Federal, sob o comando de Flávio Dino e Lula desbarataram o plano, mas a nova extrema direita usou-se de uma fala inoportuna do presidente a jornalistas e conseguiu manter a narrativa dominante acerca do caso. 

Quando os 100 dias se passarem, Lula, como se diz no Nordeste, vai ter que assobiar e chupar cana. Ao mesmo tempo em que precisa defender as pautas do governo e garantir maioria nas votações no Congresso para entregar resultados na economia e no campo social, tem que reestabelecer, com urgência, suas relações com a tríade de sustentação da nova extrema direita: os empresários do agro, os pastores evangélicos e o generalato brasileiro

E Lula vai ter que fazer isso não somente para o bem do seu governo, mas para o bem da nossa jovem e imatura democracia.  

Dário Castro

Escritor, Jornalista e Mestre em Estudos Culturais.
Contato: [email protected]

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