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Cinco Ligações Perdidas

Ilustração de mãe com criança no chão cheio de brinquedos. Cindo Ligações Perdidas. Coluna Dário Castro. Revista Meu Piauí.

-Ana, tá na hora de almoçar!

Disse a mãe, enquanto se maquiava de frente para o espelho.

O celular sobre a mesa avisava mensagens no WhatsApp, uma após a outra. O telefone tocou. Ela atendeu sem levantá-lo:

-Humrum. Ok. Tudo bem. Envio agora mesmo.

Era a chefe. Falou algo sobre um documento urgente. Encerrada a chamada, viu que o delineado estava quase aceitável. Pegou o aparelho e enviou o documento por e-mail. Ao mesmo tempo em que ouvia o som de envio concluído, perguntou alto:

-Ana?

Deu-se a mais preocupante resposta para qualquer mãe de criança: o silêncio.

Levantou-se e só depois lembrou que os sapatos não estavam afivelados. Foi com cuidado e maestria à sala. Viu a filha almoçando e assistindo à televisão.

-Eu já falei que é para se concentrar na comida. Chega de Peppa.

Desligou a TV. Ouviu o celular tocar e a menina esboçar um choro de contestação. Sentou-se perto da criança, passou a mão em seus cabelos, disse algo carinhoso, sem deixar de ser assertiva, e voltou ao quarto. Ligação perdida. Era a chefe de novo. Retornou a chamada.

-Sim. Enviei. Olhe na lixeira. Do lado esquerdo. Lixo eletrônico ou spam. Isso. Pronto. De nada. 

Corrigiu o delineado. Ficou aceitável. Passou perfume e afivelou os sapatos. Conferiu as mensagens que chegavam. Respondeu algumas. Guardou o celular na bolsa. Conferiu o look no espelho e saiu.

Deu um beijo na filha. Checou se a chave do carro estava na bolsa. O telefone tocou. Era um número de São Paulo. Avisou ao marido que almoçaria mais tarde. Passou recomendações sobre a hora de brincar e de dormir da criança. No elevador, mandou uma mensagem para ele com um breve resumo do que havia falado.

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No caminho para o trabalho, ignorou cinco ligações. Chegando lá, percebeu que uma delas era da chefe. Ligou de volta.

-Sim. Certo. Cheguei. Vejo agora. Estou subindo. Sim. Falo com ela. 

Deu bom dia à recepcionista. Olhou-se no espelho do elevador do prédio em que trabalha. Ajeitou o blazer no ombro esquerdo e sentiu que algo estava errado. Olhou, em câmera lenta, minuciosamente para o rosto. Os brincos. Esqueceu de colocar. O telefone apitou. Era um aviso de um aplicativo da cor roxa. Não deu importância.

Caminhou até o gabinete da chefia. Deu bom dia à segurança e entrou.

A chefe estava ao telefone. Apontou para a impressora, que rangia. Pegou o papel e levou à chefe. O seu telefone tocou e parou. Era o marido. Ele gosta de ligar para avisar que mandou mensagem. Ela leu o texto, que dizia: “Amor, vc pegou o carregador do meu celular?”

Ela respondeu: “Não. Você levou para o banheiro”.

O marido então escreveu: “Ahh kkkk. Valeu”.

A chefe desligou o telefone e fez um elogio ao look.

-Obrigada, Doutora!

-Não sei como você consegue um delineado tão perfeito desse. Eu nem tento!

-Perfeito? Doutora, aqui é do jeito que dá! Olha… esqueci até os brincos hoje.

A chefe ri e mostra para ela o discurso que acabou de imprimir.

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-Doutora, então é para pegar sua fala, organizar os tópicos, deixar tudo bem direto, mas com aquela pessoalidade de sempre?

-Isso mesmo. Quero gravar de uma vez só.

Gravaram o pronunciamento. De uma vez só. Conversaram mais um pouco. O telefone vibrava. Ligações e alertas de aplicativos chegavam. Quando podia, ela checava. Não era nada urgente. 

Ela foi para a sua sala. Preparou a gravação, revisou textos, fez ofícios e checou toda a programação da semana. Já era quase noite quando passou todos detalhes para a estagiária e foi embora.

No elevador, mandou mensagem para a estagiária com um resumo do que havia acabado de dizer. Ligou para o marido. Avisou que estava indo. No caminho, comprou um bolo e pães. Estava com fome. Quando chegou na porta de casa, sentiu cheiro de café e ouviu a gargalhada de sua filha.

Encheu-se de uma paz inconfundível. Girou o chave, abriu a porta e, com olhos de saudade de mãe, entrou.

Na mesa viu flores. O café estava passado. No chão cheio de brinquedos, pai e filha assistiam à Peppa Pig. A menina estava com a mesma roupa. Claramente não havia dormido. Comia biscoito já perto da hora da janta.

Nesse exato momento, naquele pequeno pedaço aconchegante de caos, ela viu que nada é (nem deve ser) perfeito. Deixou as sacolas na mesa, tirou os sapatos e deitou-se na bagunça gostosa da vida.

Dário Castro

Escritor, Jornalista e Mestre em Estudos Culturais.
Contato: [email protected]

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