Vida Dura

Ilustração de uma borboleta em cima de uma pedra, num penhasco com o céu de fundo. Vida Dura. Coluna Dário Castro. Revista Meu Piauí.

Observando o horizonte em silêncio, a pedra meditava no penhasco.

Pousou sobre ela uma borboleta, tirando-lhe a concentração.

-Vai procurar uma flor!

Disse a pedra.

-Sai daqui!

Insistiu.

A borboleta nada respondeu.

A pedra irritou-se. Tentou mexer-se. Não conseguiu. Decidiu ser taxativa:

-Borboleta, eu quero que você saia de cima de mim. Por favor.

A borboleta não esboçou nenhuma reação.

Nesse instante, a pedra ficou enfurecida. Gritou um grito mesozoico. Tentou mexer-se novamente. O resultado foi exatamente o mesmo. Nada.

A borboleta lá permanecia, como se impossível fosse que uma pedra esboçasse telúrica fúria.

De repente, o chão começa a tremer. A borboleta voa para longe. A pedra começou a deslizar no penhasco. Ela foi ganhando velocidade, rasgando o chão por onde passava, até que caiu no desfiladeiro, à beira do mar.

Enquanto despencava, ela pensava na vida e na morte, nos momentos de alegria e no sentido do universo.

A pedra bateu na água, que se espantou e abriu caminho. Afundando, ela já não sabia no que pensar. Após longos minutos, tocou em algo e repousou no assoalho do mar. Estava sobre um coral, num mundo novo e fascinante, repleto de cores incríveis.

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Enquanto se maravilhava com seu novo e aquático lar, sentiu algo rastejando sobre suas costas e subindo em busca de abrigo no topo.

-Quem está aí?

-Oi, sou o Polvo.

-Prazer. Meu nome é Pedra.

-O prazer é todo meu.

-Assim… não tenho outra forma de dizer isso, mas… não gosto que fiquem em cima de mim. Você pode sair?

-Mas é claro. Desculpe.

O polvo desceu e espreguiçou-se ao lado da pedra, sobre o coral, que pediu com delicadeza:

-Por favor, vocês dois, saiam de cima de mim.

O polvo foi embora protestando e lançando uma tinta escura nas águas. A pedra ficou, como pedra que era, parada. Ela disse:

-Não consigo. Não consigo me mexer.

-E como veio parar aqui, se não consegue se mexer?

-Não sei. Tudo tremeu e eu caí lá de cima.

-De onde?

-De cima. De fora. 

-Que cima? Que fora? 

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-Fora da água.

-Fora do mundo?

-Não. O mundo continua além da água. 

O coral pausou por exatos seis segundos e disse pausadamente. 

-Olhe, eu não nasci ontem. Além disso, sempre fui muito observadora. Sei reconhecer uma fake news a mil nós de distância. 

A pedra tentou interromper, mas foi ignorada.

-Então, Pedra… posso dizer com toda a certeza do mundo que… ou você está ficando doida ou está pensando que eu sou besta. Agora saia de cima de mim, por favor. 

Sem ter o que fazer, a pedra fez o impossível. Concentrou-se e mentalizou que levitava. Sentiu seu corpo leve e dormente. Manteve a concentração e o pensamento positivo. A sensação única de liberdade enchia a pedra de alegria.

Quando finalmente abriu os olhos, ficou surpresa com o que viu. Estava no mesmíssimo lugar. E lá ficou até que o fundo do mar virasse sertão. 

Hoje, evoluída, transcendida, experimentada e viajada, ela vive num morro próximo ao povoado Japecanga, no interior do Piauí.  Borboletas vêm e vão, sem jamais dizer uma palavra.

A pedra não se importa mais. 

Dário Castro

Escritor, Jornalista e Mestre em Estudos Culturais.
Contato: [email protected]

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