Novo Tempo?

Ilustração do planeta terra no espaço. Novo Tempo? Coluna Dário Castro. Revista Meu Piauí.

A visita de Lula à China foi um exemplo claro de “soft power”. Você já ouviu falar nesse tal de “poder brando”?

Num teaser do filme Homem-Aranha, que estreou em 2002, um helicóptero cheio de ladrões que acabaram de roubar um banco fica preso repentinamente em alguma coisa enquanto voava. A imagem abre e revela que eles foram capturados por uma teia gigante entre as torres gêmeas do World Trade Center.

Após os ataques de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos, essa peça foi retirada do ar e toda a cena também foi excluída do longa metragem. Algumas cenas do filme foram gravadas após os atos terroristas. Uma delas é a em que, durante uma luta entre o Homem-Aranha e o seu antagonista, o Duende Verde, um grupo de pessoas aparece numa ponte sai em defesa do herói e atira objetos no inimigo, que planava no seu skate voador. Um homem diz “você está mexendo com New York”, ao que outro acrescenta: “se mexe com um de nós, mexe com todos nós”! A outra cena é o fim do filme, que mostra o Homem-aranha vigilante, sobrevoando os prédios de New York com suas teias. Ele salta sobre um dos prédios mais altos e posa frente à bandeira dos Estados Unidos, que tremula. 

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Aquelas pessoas simples na ponte representavam os cidadãos americanos. O Duende Verde servia como uma personificação de Osama Bin Laden, mentor dos ataques terroristas. A cena final funciona como afirmação do patriotismo e da bondade e dos Estados Unidos. Esse é um exemplo claro de “soft power” estadunidense.

Soft power” é um conceito que se refere à capacidade de um país (ou outra entidade) de influenciar os outros sem recorrer à coerção ou força militar (“hard power”). Em vez disso, o “soft power” usa ferramentas como a cultura, valores políticos, diplomacia, ajuda humanitária, esportes, educação, tecnologia e outros meios não coercitivos.  

Amplamente utilizado pelos Estados Unidos durante a guerra fria contra o comunismo e a União Soviética, o “soft power” americano está todo concentrado, hoje em dia, em dois países: a China, por desafiar a hegemonia americana no mundo, e a Rússia, por conta da disputa geopolítica que envolve a Otan e os interesses americanos. Mas não é só a terra do Tio Sam que usa o “soft power” para garantir sua evidência mundial.

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Foto: Ricardo Stuckert

Na semana passada, a China recebeu Lula com toda pompa e circunstância. Longos tapetes vermelhos serviam de caminho. Um pequeno exército de crianças balançavam as bandeiras do Brasil e da China. A banda do exército Chinês entoou “Novo Tempo”, de Ivan Lins, uma canção que prenunciava o fim da Ditadura Militar no Brasil, apoiada pelos Estados Unidos. Em território Chinês, Lula questionou o uso do Dólar como moeda do mundo e a posição pró-guerra dos Estados Unidos em relação à guerra na Ucrânia. Ficou no ar a sugestão de um “novo tempo”, que reflita o novo desenho geopolítico do mundo, no qual os Brics teriam o papel que lhe cabem. 

Brasil e China estão há mil anos luz atrás dos Estados Unidos na capacidade de exercer o “soft power”. Começaram muito tarde. As reações do lado americano, porém, sinalizaram profunda preocupação com o que está por vir. E o que será, Ivan Lins?

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Dário Castro

Escritor, Jornalista e Mestre em Estudos Culturais.
Contato: [email protected]

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