Os Homens Que Queremos Ser

“A masculinidade tóxica não é nada senão a soma dos efeitos do machismo primariamente nos homens, mas que transforma em tragédia a vida das mulheres.”

Mulheres são assassinadas todos os dias por seus parceiros. Muitas são perseguidas, ameaçadas ou vivem em cárcere privado. Os números, sozinhos, mostram que ser mulher no Brasil é viver uma vida de risco de assédio e de importunação. Toda mulher conhece outra que já sofreu abuso. Todas elas já precisaram ou vão precisar pensar sobre as roupas que usam e sobre como se comportam para evitar problemas. 

Quis fazer essas pontuações para deixar claro aos homens que venham a ler o que agora escrevo, que nós não fazemos ideia do mundo em que elas vivem. Nós ignoramos, todos os dias, que somos responsáveis, de maneira direta ou indireta, pela construção desse mundo perigoso para elas. 

Mesmo que sintamos que não carregamos culpa, temos as condições de fazer algo para que essa realidade mude. E não fazemos. Não achamos que temos qualquer obrigação. Alguns de nós, aliás, são capazes até mesmo de reivindicar superioridade, culpabilizar as vítimas e desdenhar da luta feminista. E não fazemos nada. Repito, não achamos que temos qualquer obrigação.

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Crescemos, mulheres e homens, sob a tutela de pais e mães, em sua grande maioria, machistas. Fomos ensinados nossos lugares no mundo e nossas liberdade conforme nosso sexo. Meninas são ainda ensinadas a repreender seus desejos, a se ocultarem sob a sombra de homens e a manterem uma discrição com ares de subserviência. Meninos ainda engolem choro, são emocionalmente reprimidos e propensos a comportamentos de risco. O machismo está entre nós, causando inferno na vida de mulheres e não poupando a vida dos homens.  

A masculinidade tóxica não é nada senão a soma dos efeitos do machismo primariamente nos homens, mas que transforma em tragédia a vida das mulheres. É um conjunto de valores, ideias e comportamentos  que levam, em último grau, à violência contra a mulher e contra a si mesmo. 

Um estudo do Ministério da Saúde apontou que mulheres jovens que sofreram violência doméstica têm 30 vezes mais chances de cometerem suicídio, se comparadas à mulheres sem notificação prévia de violência. Ou seja, quando os homens não as matam, abrem o caminho para que elas tirem a própria vida.

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Nós também nos matamos. Ensinados a manter uma eterna vigília sobre a própria masculinidade e a dos outros, homens resistem toda uma vida a demonstrar fraqueza a ponto de não saberem mais expressar suas emoções. Nós adoecemos, negamos que adoecemos e nos recusamos a buscar ajuda. Não é surpresa saber que, em 2019, 78% dos suicídios foram cometidos por eles

É urgente conversamos sobre os homens que somos e, especialmente, sobre os homens que queremos ser. Se não tivermos as condições de romper com a subjetividade da masculinidade tradicional, que nos foi passada por nossos pais, e a eles pelos pais deles, o que nos restará de chances para a construção de um mundo melhor, de uma realidade menos hostil para nossas filhas e nossos filhos?

O primeiro passo para nós homens sermos solução é compreendermos que somos problema. 

Dário Castro

Escritor, Jornalista e Mestre em Estudos Culturais.
Contato: [email protected]

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