Teresina em Pânico

Ilustração de mãe preocupada e filha chorando. Teresina em Pânico. Coluna Dário Castro. Revista Meu Piauí

Os jornais e portais da cidade davam a notícia urgente de que a polícia havia encontrado os autores de mensagens com ameaças de ataque a escola em Teresina. 

No Instagram da Prefeitura, li um informe sobre as ações que estão sendo tomadas em nível municipal. Mais abaixo, na legenda, vejo o seguinte: “Todas as mensagens investigadas pela equipe de inteligência da Delegacia de Crimes Virtuais foram consideradas fakes”.

Leitores (que não leram as matérias) comentavam nas redes sociais: “não disseram que as ameaças eram fake”? 

E assim, o pânico tomou conta da cidade.  As palavras “massacre” e “atentado” espalharam-se por todos os celulares e rodas de conversa. 

Em curto bate-papo, minha vizinha trouxe o assunto à tona. Ela é professora da rede estadual. Vi tensão no seu olhar ao me falar sobre as ameaças. 

Um amigo me mostrou o comunicado que recebeu da escola do seu filho. Nele, informavam medidas adicionais de segurança para maior tranquilidade dos pais e alunos. Transcrevo aqui um trecho: “Todos os nossos seguranças externos, após reunião específica, estão cientes e com atenção redobrada em suas vigílias”. 

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Esse é o clima na cidade, e eu gostaria de pontuar duas coisas abaixo. 

Primeiro, a velocidade com que o pânico se instala é a mesma com que ele se dissipa. Em algumas semana, ninguém falará ou se preocupará mais com o assunto. 

Segundo, problema não se resolve no susto. Para ser resolvida, qualquer questão precisa ser compreendida. Depois, é preciso aplicar as soluções necessárias para atingir a causa e os efeitos do problema. Não é da noite para o dia. Gasta-se tempo, planejamento e dinheiro. 

Tendo isso em vista, faço agora minhas considerações. 

Temos problemas nas escolas há tempos. Estes problemas continuam por terem sido rotineiramente ignorados. Estes problemas são ignorados porque não há uma forte comoção da sociedade. E se houver começão provocada por pânico, a resposta sempre será inexata e insuficiente. 

Para tratar problemas como o bullying endêmico, violência entre alunos e contra professores, facções e tráfico de drogas nas escolas, professores ameaçados e temerosos, professores aliciando alunas menores de idade… (parei por aqui, mas a lista continua), precisamos não de pânico, mas de uma real e contínua preocupação social, que nos exige empatia e um olhar multissetorial sobre a educação. 

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A impressão que tenho é que cada um de nós olha somente para o próprio umbigo e considera como “problema dos outros” tudo aquilo que não bate à nossa porta. E somente quando bate é que vamos gritar e exigir uma solução.

É preciso que nos vejamos também como problema. Onde estamos faltando, não somente com nossos filhos, mas com a sociedade à qual pertencemos?

Não sei você, mas ainda hoje eu sinto um misto de nojo e de vergonha alheia quando lembro de mães de classe média exigindo aulas para seus filhos durante a pandemia, enquanto morria um professor após o outro de covid em Teresina.

Eu quero acreditar que vamos saber enfrentar esse problema de possíveis atentados nas escolas de maneira efetiva e séria, sem surto nem atropelo. Eu me pergunto, porém, por exemplo, quantos desses pais que estão agora morrendo de medo não se julgam cidadãos de bem e guardam armas dentro de casa, ao alcance do filho que cresceu ouvindo que “homem não leva desaforo pra casa” e “bandido bom é bandido morto”?

Dário Castro

Escritor, Jornalista e Mestre em Estudos Culturais.
Contato: [email protected]

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