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Raízes Empreendedoras: o sucesso de empreendimentos piauienses na Expo Favela Brasil

Aconteceu durante dois dias em Teresina, a etapa estadual da Expo Favela Innovation Piauí 2023. O evento reuniu um público de mais de 6 mil pessoas que puderam apreciar o trabalho de 60 empreendedores e artistas da periferia. Além disso, os participantes tiveram a oportunidade de assistir a palestras e participar de discussões. Ainda não alcançamos uma vitória definitiva da favela, mas apesar dos obstáculos e da falta de políticas públicas, a periferia conseguiu fazer valer sua voz ativa.  

Durante o evento, foram selecionadas 10 empresas que representarão o Piauí na Expo Favela Brasil, marcada para os dias 1, 2 e 3 de dezembro de 2023 em São Paulo. Esta será uma oportunidade para os piauienses mostrarem que o talento brota da base e se fortalece através da resiliência das comunidades periféricas, que estão conquistando cada vez mais espaço no cenário central.

A Expo Favela Innovation Piauí 2023 é um evento que busca criar conexões e quebrar estigmas. Ele oferece aos empreendedores a chance de transformar os muros que historicamente dividiram as periferias dos centros comerciais em vitrines para seus talentos. Este evento é organizado pela Central Única das Favelas (CUFA) em parceria com a Favela Holding, que tem como objetivo promover a educação e o espírito empreendedor em grupos socialmente marginalizados.

A CUFA teve seu início em 1998, quando um grupo de jovens, em sua maioria negros, oriundos de diversas favelas do Rio de Janeiro e ligados ao movimento Hip Hop, se uniu para discutir música. Inicialmente, seu propósito era debater o movimento Hip Hop no Brasil e destacar como ele era sistematicamente marginalizado, tanto pela sociedade em geral quanto pela própria população das favelas. 

Foto: Divulgação

O que começou como um grupo cresceu e se tornou uma organização presente em 15 países ao redor do mundo e em todos os estados do Brasil. Atualmente, a CUFA está envolvida em iniciativas sociais, culturais e programas de capacitação profissional, incluindo a realização do maior campeonato de futebol entre favelas do mundo: a Taça das Favelas.

Essas ações são possíveis graças a acordos e colaborações com entidades governamentais, fundações e empresas privadas. A ‘Expo Favela’ é um dos projetos nascidos dessa organização e tem como princípio central proporcionar oportunidades para a população carente das comunidades do país.

Por meio da Favela Holding e da parceria com a CUFA,o evento busca impulsionar o trabalho de jovens negros das periferias. Essas organizações têm influência significativa e conexões nas comunidades, além de estabelecerem diálogo com autoridades e empresários externos. Isso facilita a promoção desses jovens empreendedores, cria oportunidades de colaboração e apoio e contribui para a inclusão social e econômica desses talentos em ascensão. Além das oportunidades de negócios, eventos como a Expo Favela também oferecem qualificação profissional por meio de palestras e discussões.

Uma ideia que floresceu

Um projeto empreendedor que teve seu início como uma pequena semente. É nessa perspectiva que o Alchemist visa aprimorar o mundo. A startup, fundada pelo jovem empresário Winston Marley, dedica-se à promoção da agricultura e à criação de jardins sustentáveis nas áreas urbanas e terá a honra de estar entre os principais expositores do evento em São Paulo, representando o Piauí.

Mediante um sistema de assinatura, os apoiadores da Alchemist passam a receber “horta na caixa”, incluindo um conjunto de itens, como adubo orgânico, mudas e um guia passo a passo para o cultivo de seus próprios legumes. A proposta é que seja entregue desmontada, permitindo que os assinantes construam seus próprios espaços de cultivo e tenham uma experiência direta de colocar as mãos na terra. 

O cantor Toni Garrido durante visita ao estande do Alchemist na Expo Favela Piauí (Foto: Arquivo Pessoal W. Marley)

A inspiração para o Alchemist surgiu quando Marley sentiu a necessidade de melhorar sua própria alimentação.

“O nosso objetivo é fazer com que os clientes consigam produzir em pequena escala alimentos que podem tornar umas das suas refeições saudáveis”, explica.

A tradição da agricultura e da produção de alimentos tem percorrido gerações na família de Marley; seu avô trabalhava nos campos de sementes na cidade de Redenção, no Ceará. Após concluir sua graduação em logística e adquirir experiência na área, Marley decidiu reconectar-se com suas raízes e a herança de seu avô: a agricultura. 

Foi assim que ele fundou a Alchemist, com o propósito de promover a sustentabilidade na agricultura e resistir aos perigos de uma indústria alimentícia que prejudica a saúde.

“A Alchemist surgiu da necessidade de mudar minha qualidade de vida, tendo a oportunidade de empreender, trabalhar com minhas próprias mãos e ver as mudanças acontecerem. Eu queria poder me alimentar melhor e resistir a uma indústria que nos força a uma alimentação desregrada e prejudicial”, destaca.

O Alchemist, como o nome sugere, luta para transformar o cinza das cidades em verde, em sustentabilidade. Para Marley, a chance de representar o Piauí na Expo Favela Brasil é um reconhecimento de que a empresa foi capaz de transformar esforço e trabalho árduo em sucesso e oportunidades, impulsionando o crescimento do negócio. Ele espera aproveitar a Expo Favela Brasil para fechar negócios, expandir sua rede de contatos, atrair investidores e, assim, melhorar a qualidade de vida da população nas grandes cidades.

“Espero ter a oportunidade de colaborar em nível nacional para valorizar a agricultura familiar, promover uma alimentação saudável e práticas sustentáveis, e participar de projetos que abordem esses temas em nossa sociedade”, compartilha.

Ancestralidade na cabeça

Sobre suas cabeças exibem um padrão multicolorido de formas geométricas. Variados tamanhos e estilos de amarração. Isso é uma afirmação de suas origens, como uma coroa. As mulheres negras usam turbantes como um meio de se reconectar com suas raízes culturais, ajudando na transição capilar e também como uma fonte de renda empreendedora. Foi assim que nasceu a Tecidos Orí Ayaba, uma loja de tecidos de estampas africanas e turbantes fundada por Joana Victória. 

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As estampas africanas são conhecidas por sua rica variedade de temáticas e simbolismo, que refletem aspectos da vida, história e tradições ancestrais da África (Foto: Arquivo pessoal/ Joana Victoria)

Além de complementar a renda com produtos que não eram facilmente encontrados em Teresina, Joana também desejava destacar a cultura e a beleza negra.

“Nosso objetivo é elevar a autoestima das pessoas negras, trazendo essa reconexão com a África, seus símbolos, cores e vestimenta africana, obviamente, no continente”, explica Joana.

Os tecidos em questão, com suas diversas tonalidades, padrões e formas de amarração, carregam a rica herança das raízes ancestrais.

“Só o fato das pessoas conhecerem um pouco, de se sentirem poderosas, bonitas, com autoestima usando esses adereços, já traz muita potência para esses corpos”, ressalta.

O nome “Tecidos Orí Ayabá” tem origem na cultura yorubá, representando a ideia de adornar as cabeças dos reis e rainhas com turbantes. Este nome reflete a importância do “ori” (cabeça) na Umbanda e o significado de “ayabá” (rainha) em yorubá, simbolizando tanto o cuidado espiritual quanto a nobreza. 

Dessa forma, os turbantes coroam as cabeças das pessoas negras com seus padrões coloridos e geométricos, frequentemente inspirados na natureza e cultura do continente africano.

“Um turbante, uma roupa africana, uma bata, uma calça, com essas estampas, trazem essa reconexão pois você se sente parte daquilo que sempre pertenceu às nossas raízes”. afirma Joana

Além disso, o turbante desempenha papéis significativos em cerimônias do candomblé e na modelagem de cabelos crespos. “O turbante é um símbolo muito rico e poderoso para as pessoas negras, tanto no Brasil quanto no continente”, explica.

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Participação de Joana no Expo Favela PIauí (Foto: Arquivo pessoal/ Joana Victoria)

A participação na Expo favela Piauí já trouxe resultados positivos para o empreendimento de Joana, incluindo o aumento nas vendas e um maior engajamento nas redes sociais de sua loja.

“A Expo Favela já está nos dando essa visibilidade, aqui mesmo em Teresina, no Piauí. Nossos trabalhos já estão sendo destacados na mídia, na televisão e em portais de notícias online. Estamos ganhando visibilidade”, enfatiza a empreendedora.

Além da Expo Favela Piauí, a Tecidos Orí Ayaba estará presente na versão nacional do evento. Joana Victória conta que expor a estamparia africana em São Paulo será uma oportunidade enriquecedora para ampliar o público, explorar diferentes projetos, empresas e ideias por meio do contato com outros expositores.

Representar o Piauí na Expo Favela é um prazer, a realização de um sonho. Eu nunca saí daqui, nunca viajei de avião, nunca fui para o sul. Portanto, é um passo muito importante para nós que viemos de origens humildes, que nunca tivemos essa oportunidade, e quem sabe quando teremos essa chance ou quando conseguiríamos isso com nossos próprios recursos”, relata.

Para o futuro, Joana tem o desejo de expandir a estamparia africana para outras cidades além da capital piauiense.

“Quem sabe ter um ateliê, criar nossas próprias roupas, vender essas roupas sob encomenda e, talvez um dia, ter uma filial em outro local”. 

Além disso, a visão da empreendedora incentiva um número maior de pessoas a se reconectar com suas raízes.

“Além da venda de tecidos, queremos aumentar tanto nosso papel de informação sobre a cultura negra e africana quanto nossas expectativas de trabalho, produzindo nossos próprios tecidos, roupas e turbantes”, explica.

O Fator Favela

A oportunidade para empreendimentos de pessoas dessas comunidades ganharem reconhecimento por meio de feiras como a Expo Favela não apenas beneficia os empreendedores individualmente, mas também contribui para o fortalecimento das comunidades, a promoção da diversidade e o incentivo ao empreendedorismo em contextos desafiadores. Isso cria um impacto positivo tanto a nível local quanto global.

Esses bairros estão se tornando centros de empreendedorismo devido ao seu grande potencial como mercado produtor e consumidor. De acordo com uma pesquisa da Data Favela, os moradores dessas comunidades movimentam mais de R$119 bilhões anualmente em consumo no Brasil. No entanto, os moradores dessas regiões não desejam apenas consumir; elas também desejam produzir. De acordo com o mesmo estudo, 76% dos moradores dessas comunidades têm interesse em possuir ou já possuem um negócio próprio. 

Através de experiências como a Expo Favela, esses empreendedores ganham força e visibilidade, mostrando que a favela, antes de tudo, é um berço de potencialidades.

Tenha o prazer de conhecer os 10 empreendimentos do Piauí que foram selecionados para participar da Expo Favela Brasil:

1 – Rômulo Natan – Arte em Pneu (artes e decorações com reciclagem de pneus)
2 – Catiene – I9Nursing (serviços acessíveis de podologia e enfermagem para o público de favela)
3 – Ana Cristina – Artesana’s (artesanato diversificado)
4 – Jaqueline – Aje Omi (biocosméticos e saboaria natural)
5 – Marley – Alchemist (jardins sustentáveis)
6 – Daniela Hannah – Mude os Hábitos, Mude o Mundo (educação ambiental)
7 – Iramaira – Bonita Fios (looks especializados em crochê)
8 – Joana Victoria – Tecidos Orí Ayaba (especializada em estampas afro)
9 – Neura – NC Pizzas e Sorvetes (culinária inclusiva, produção de queijo vegetal zero lactose)
10 –  Nonato e Joselé – Caza Maker (cursos e oficinas itinerantes)

Sane Araujo

Jornalista e pesquisadora, formada em Comunicação Social pela Universidade Federal do Piauí.

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