INACREDITÁVEL

“Não tinha um cristão na rua que não estivesse enrolado em alguma coisa. Juro por Deus que, perto do Luxor Hotel, avistei uma senhorinha vestida de sacolas do Carvalho dos pés à cabeça.”

Quero contar pra vocês uma história inacreditável. 

Acordei de manhã cedinho. Como faço todos os dias, preparei um café. 

Fiz também beiju, ovos e levei tudo para a mesa. Foi aí que olhei pela primeira vez para a varanda do apartamento. 

Cocei os olhos para corrigir o defeito na visão. Nada mudou. Simplesmente não havia qualquer coisa do lado de fora. Estava tudo branco. 

Fui até lá, apoiei-me na sacada, fiz olhos de quem quer ler letras pequenininhas e vi, cá e lá, algumas nuances. Só então percebi o frio medonho que fazia e dei-me conta de que Teresina estava completamente coberta de neve

A névoa densa tinha textura de algodão-doce. Corri para o quarto. Larissa dormia como uma pedra. Joguei dois cobertores em cima dela e peguei mais um pra mim. Enrolei-me nele,  calcei meus tênis e desci no elevador. 

Henrique, o porteiro, estava vestindo uma rede e tomando um copão de café, sentado no sofá do lobby. Ele olhou pra mim e disse com ar de fatalidade: 

-Seu Dário, o mundo tá se acabando. 

Na garagem, vários moradores estavam dentro de seus carros. Imagino, usando o ar no aquecedor. 

Fui à rua. Tudo branco. Igual beiju. Não dava para ver nada a mais de 5 palmos de distância. Ouvi uma mulher gritando com alguém:

-Passa pra dentro, cão!

Ainda hoje não sei se era gente ou um cachorro. Eu já estava batendo os queixos. Subi de volta. Quando cheguei na porta, Larissa gritou lá do quarto da neném:

-Tu viu? Tá fazendo -8 graus! Como é que pode?

E respondi enquanto me aproximava:

-Vi. Fui lá embaixo. O negócio tá sério. 

Ao chegar no quarto, deparei-me com Larissa só de pijama e Aninha usando, no mínimo, 10 peças de roupa. 

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-Tive que empacotar.

Disse ela com aquele doce e sisudo ar de mãe protetora. 

-Vou fazer um cuscuz pra ela, bem quentinho. 

Eu disse e prossegui com o plano. 

Nós aproveitamos e tomamos café também. 

Pegamos nossas roupas de frio guardadas no fundo do alto da parte de trás do nicho mais esquecido do armário do nosso quarto e fomos ao carro. 

E deixa eu contar pra você que a Larissa enrolou a neném num cobertor rosa, só com os olhos e o nariz de fora. Parecia uma lagartinha num casulo pink. 

Passamos pela ponte JK. Larissa ligava para a família e amigos, querendo saber se estavam todos bem. Aninha gritava o nome da Peppa insistentemente. Eu tentava me concentrar no trajeto. 

A visibilidade começava a melhorar. Olhei para o rio. Completamente congelado. Vi três vira-latas atravessando correndo. Pra não dizerem que tô mentindo, tirei até uma foto:

Continuando. A igreja São Benedito parecia um bolo de casamento lindo daqueles que você jura impossível ficar de pé até descobrir que os três primeiros andares são de isopor. 

Na praça Pedro II, vi de relance uma roda de pessoas se aquecendo. Não vi o fogo, mas tinha muita fumaça. Ah, se tinha! Logo ali, numa barraquinha de pastel, baixei o vidro pra dar um alô ao Ostiga Jr. Ele estava pedindo pra moça ferver o caldo de cana dele. Pensei comigo, “que cara gênio”. 

Pelo centro, a folia era grande. Na praça do Liceu, fizeram um boneco de neve com nariz de caju, braços de tala de carnaúba e olhos de pitomba. A meninada brincava de dar rasteira e briga de bola de neve. Super saudável. 

Não tinha um cristão na rua que não estivesse enrolado em alguma coisa. Juro por Deus que, perto do Luxor Hotel, avistei uma senhorinha vestida de sacolas do Carvalho dos pés à cabeça. 

Em frente à prefeitura, os babões colocaram uma faixa enorme que dizia: “neve em Teresina. Obrigado Dr. Pessoa!”. 

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Na avenida Maranhão, como sempre, tinha de tudo. Quer dizer… menos ônibus. Bastante inusitado. Será por causa da neve ou por que não pagaram os motoristas e cobradores? O que haveria de ser mais provável?

O tempo clareou ainda mais. Pegamos a ponte estaiada. Tinha meia dúzia de malucos fazendo rapel. Na Avenida Raul Lopes, vi algo se aproximando muito rápido pelo retrovisor. Quando pensei em desviar, passou feito um foguete. Era o triatleta Aléssio Dantas em sua bike. Vai ser tarado em treino assim na casa do carai. 

Chegando no Teresina Shopping, quase não achamos vaga. Lotado. Parecia até véspera de dia das mães. Entramos. Que quentinho gostoso. Improvisaram tendas com chá de camomila e café para esquentar o povo. 

O Péricles Mendel passou por nós de suéter de cashmere azul e, muito educado, acenou com um sorriso, ignorando quase por completamente o cheiro de roupa guardada do meu casaco bufarento.   

A praça de alimentação tinha mais gente que show de graça embaixo da ponte estaiada. Zuada doida. Meu professor Vítor Sandes, da UFPI, andava com um pacote de papel embaixo de cada suvaco. 

Olhei. Ele percebeu minha curiosidade e disse que eram pastéis quentinhos. 

-Pra aquecer. 

Concluiu ele, tremendo. E eu pensei comigo: “é gênio”. 

Aninha deu sinais de sono. No telão instalado no meio da praça, Joelson Giordani, de sobretudo igual ao Neo do Matrix, informava que, segundo informações da BBC news, o eixo da terra havia se inclinado. 

Com isso, a gente foi parar na altura que hoje corresponde a Frankfurt, na Alemanha, e a cidade que agora estava na mesma faixa de Teresina em relação ao eixo do equador era…Gramado. 

Olhei para a Larissa. Ela estava de queixo caído olhando pro telão. A neném já dormia. Eu disse bem baixinho:

-Inacreditável. 

Dário Castro

Escritor, Jornalista e Mestre em Estudos Culturais.
Contato: [email protected]

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